domingo, 1 de maio de 2016

"O sumiço do mais longevo ministro da Fazenda", por Jornal "O Globo"


Matéria publicada hoje, 01-05-2016 no Jornal "O Globo"

http://m.oglobo.globo.com/brasil/o-sumico-do-mais-longevo-ministro-da-fazenda-19206211

O sumiço do mais longevo ministro da Fazenda

Responsabilizado por parte da crise econômica, Guido Mantega não dá mais aulas e evita restaurantes
POR MARIANA SANCHES

01/05/16 - 06h00 | Atualizado: 01/05/16 - 06h00


SÃO PAULO — O então ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou alguns dias incomunicável. Era setembro de 2014 e, em uma entrevista como candidata à reeleição, Dilma anunciara sua futura demissão, sem combinar com o subordinado. Era a gota d'água em um balde que enchia há meses. Angustiado, o ministro ouviu amigos e acabou demovido da ideia de se demitir, em meio à campanha. Quatro dias depois da declaração, a presidente o chamou no Alvorada e o afagou com elogios pela “competência”. Com a vaidade minimamente recomposta, Mantega caminhou ao lado de Dilma por mais três meses. Depois, ela enfrentaria a pior crise econômica recente do país que culminaria em um processo de impeachment enquanto ele mergulharia em um sereno desaparecimento.

Meses depois, Mantega, o mais longevo ministro da Fazenda da história da República, parece pouco afeito à comunicação externa. Ele pouco sai de casa. Mesmo o tradicional almoço de domingo com sua nonagenária mãe acontece a intervalos espaçados. O amigo e economista Luiz Gonzaga Belluzo, com quem costumava ir a restaurantes às sextas-feiras, agora vê o amigo a cada bimestre. Livrarias e cinemas foram abolidos da rotina. Na FGV, onde atua como pesquisador, ele se mantém a portas fechadas em sua sala. Também optou por não dar aulas.

Acusado pela oposição de ser o responsável pela ruína econômica do país, Mantega se dedica à vida acadêmica e aos cuidados com a mulher, que sofre de câncer. Ele não quer ser visto por medo de sofrer hostilidades: já foram três episódios. Tampouco quer ser ouvido. Reservadamente, tem dito que a eventual queda de Dilma não é responsabilidade da chamada “contabilidade criativa”, adotada em seu ministério, mas do estilo da presidente. Irascível, teimosa e incapaz de reconhecer seus próprios erros, segundo ele, Dilma teria jogado em suas costas as responsabilidades por erros econômicos como o represamento do preço da gasolina, o aumento nos gastos públicos e a diminuição do preço da eletricidade.


— Em uma reunião em 2011, critiquei duramente uma ideia que eu sabia que era dela. A Dilma virou para Mantega e disparou: “Eu não falei, Guido?” — exemplifica um economista.

Mantega, porém, não fará tais críticas à ex-chefe publicamente. Não quer se converter em mais uma pedra sobre o telhado de vidro da presidente.

— Ele (Mantega) era um subministro. Nunca foi o ministro da Fazenda. Esse papel era da Dilma. Mantega não tem culpa de nada e está tranquilo: as decisões foram dela. Todo mundo sabia o que se passava. É um excelente economista — comenta o também ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto


Delfim esteve há 20 dias com o amigo em um seminário organizado por Mantega. O evento sequer foi divulgado.

— Ele estava absolutamente bem. Mas se falar de governo com ele, é possível que xingue sua mãe — ri Delfim.

Segundo ex-colegas de ministério, pelo menos desde 2012 Mantega advogava por ajustes fiscais. Ao dizer coisas que Dilma não queria ouvir, deixou de ser o ministro mais poderoso do governo. Era voto vencido tanto pelo ex-secretário Arno Augustin como pelo então secretário-executivo da Fazenda e atual ministro Nelson Barbosa. Ambos tinham audiências diretas com a presidente, sem a presença de Mantega, o que lhe causava certo desconforto. Inveterado piadista, distribuía pastilhas em reuniões tensas. Mas conforme o fim do primeiro mandato de Dilma se aproximava, Mantega adotou postura mais reservada. Em 2014, a presidente teria lhe dito que, se adotasse seu plano de austeridade, perderia a eleição. Economistas afirmam que as três primeiras medidas de ajuste do ex-ministro Joaquim Levy “foram encontradas na antiga mesa de Mantega”.

Hoje, apelos patrióticos não o comovem mais. Mantega não cogita voltar a exercer cargos públicos. Se for condenado pelas contas do governo, já reprovadas no TCU, ficará inclusive impedido de fazê-lo. Mantega pode se complicar em outra frente, dadas as acusações feitas pela mulher do marqueteiro João Santana, Mônica Moura, de que ele intermediou caixa dois para a campanha de Dilma. Ele nega.

No PT, seu contato mais estreito é com Lula, de quem foi professor de economia e é amigo. Dono de uma pequena fortuna pessoal que lhe foi deixada pelo pai, um soldado do Exército italiano fascista que se tornou empresário de móveis no Brasil, Mantega não pensa em se aposentar. Quer escrever um livro sobre os quase nove anos em que esteve na Fazenda.

— Ele não pisa mais em Brasília. No trato com ele, Dilma não foi só pouco generosa. Ela lhe faltou com respeito — conclui Delfim.