sábado, 3 de janeiro de 2015

Mais do "País paralelo" contado no discurso de posse da Presidente Dilma Rousseff...ou..... "País cenográfico", de Miriam Leitão e Alvaro Gribel e "Faz de conta" de Merval Pereira.

O discurso da Presidente Dilma Rousseff, na última quinta-feira ao longo de sua posse, foi tão recheado de absurdos, inconsistências, incoerências, tão desconectado da Realidade do Brasil e do brasileiro, que artigos detalhando e analisando tal característica não demoraram a surgir.

Vários.....vários.....vários deles......

A minha lembrança real, em termos de posse de Presidentes da República, ou "atos de posse", vaí até a Posse do Ex-Presidente Fernando Collor de Mello.

Desde lá, ou seja, desde o início dos anos 90, não me lembro de tamanha distância entre um discurso de um Presidente e a Realidade à sua frente.

Me lembro sim de alguns discursos desconexos e desconectados com a Realidade do mesmo Ex-Presidente Fernando Collor de Mello,

Mas, não foi no início de seu governo.......foi aos 40 minutos do segundo tempo......

O ex-Presidente Fernando Collor de Mello estava sozinho, isolado, solitário na Presidência e abandonado pela sua base política.....

Eram os últimos minutos de seu exercício na Presidência......

Abaixo, 2 textos que mostram o quão desconectado da Realidade foi o discurso de posse da Presidente Dilma Rousseff.

O primeiro, da jornalista Miriam Leitão,e Alvaro Gribel de 02-01-2015, publicado no Jornal "O Globo"

O segundo, do jornalista Merval Pereira, de 02-01-2015, também publicado no Jornal "O Globo"



http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2015/01/02/pais-cenografico-557891.asp


COLUNA NO GLOBO
País cenográfico
Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel - 02.01.2015 | 14h23m

A presidente Dilma continua no país cenográfico da campanha. A corrupção vem dos outros: “dos predadores da Petrobras e inimigos externos”; seu governo já tinha feito um “vigoroso processo de aprimoramento de gestão” na empresa. Ela sempre deu prioridade ao combate à inflação, ao ajuste fiscal, produziu um “salto de qualidade na logística” e respeitou o sustentabilidade.

Dilma disse que seu governo foi o que mais combateu a corrupção. O combate à corrupção tem sido feito por órgãos de Estado, como a Polícia Federal. Ou então por instituições com independência constitucional, como o Ministério Público e a Justiça. No que dependeu da sua base no Congresso, foi feita uma vergonhosa CPI da Petrobras na qual se serviu uma pizza.

Ninguém imaginava que ela fosse admitir o quanto o aparelhamento político partidário da Petrobras e a desorganização administrativa na empresa estão por trás do pior momento da vida da estatal. Mas ela tentou pôr a realidade pelo avesso e se apresentou como a líder do combate à corrupção na empresa e no país.

Num dos piores momentos do discurso, ela tentou jogar sobre os críticos das opções técnicas feitas pelo governo a culpa pela crise da Petrobras. “Não podemos permitir que a Petrobras seja alvo de um cerco especulativo de interesses contrariados com a adoção do regime de partilha e da política de conteúdo nacional”. Esse não é o problema. O que enfraqueceu a empresa, e disso todos sabem, foi o saque aos seus cofres com a corrupção contaminando inúmeras atividades da Petrobras numa operação cujos contornos ainda não estão inteiramente conhecidos. Mas nada têm a ver com o debate técnico sobre qual é o melhor regime de explorar o petróleo. A empresa não consegue sequer ter um balanço auditado. Aqui o contorcionismo ultrapassou os limites. O país precisa de um combate sistemático à corrupção, mas isso não se faz tergiversando sobre o que realmente está acontecendo na nossa maior e mais importante empresa.

Houve momentos em que dava a impressão de que ela pisaria no planeta Terra. “As mudanças que o país espera para os próximos quatro anos dependem muito da estabilidade e da credibilidade da economia”. Sim, dependem. E por isso ela trocou de orientação econômica. Mas não foi isso que ela disse para completar a frase. Segundo Dilma, no seu governo sempre houve a “centralidade do controle da inflação, e o imperativo da disciplina fiscal”. A verdade é que no primeiro mandato a inflação nunca esteve na meta de 4,5% e chega-se ao fim dos quatro anos com os piores resultados fiscais em quase duas décadas.

Ela disse que a dívida líquida caiu. Na verdade, o importante é a dívida bruta, e esse indicador aumentou nove pontos percentuais do PIB durante seu primeiro mandato. A farra das transferências para o BNDES ajudaram a mascarar esse aumento quando o dado que se olha é a dívida líquida.

Dilma entrou em contradição quando disse que o mais importante é retomar o crescimento e “o primeiro passo para isso passa por um ajuste nas contas públicas”. Estranho. Ou bem o ajuste é necessário, ou bem ela sempre respeitou o “imperativo da disciplina fiscal”.

A presidente disse que dará prioridade ao desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação. Seu ministro dessa área será Aldo Rebelo, que tem certa incompatibilidade com o tema. Dilma lançou o lema do segundo mandato que seria “simples, direto e mobilizador”. O lema é: “Brasil, pátria educadora”. Segundo ela, a educação será a “prioridade das prioridades”. Ela executará isso através do ministro Cid Gomes.

Definiu o Brasil como “o país líder, no mundo, em políticas sociais transformadoras” e atribuiu apenas aos governos do PT todos os avanços de inclusão que aconteceram no país, recriando a ideia do “nunca antes”.

Segundo Dilma, seu governo “investiu muito e em todo o país sem abdicar do compromisso de sustentabilidade ambiental”. A taxa de investimento caiu no ano passado 7% e houve retrocessos na política ambiental. E esse foi o discurso feito no Congresso e não dedicado à militância.

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http://oglobo.globo.com/blogs/blogdomerval/posts/2015/01/02/faz-de-conta-557907.asp


Faz de conta
MERVAL PEREIRA
02.01.2015 10h10m

 A presidente Dilma Rousseff que tomou posse ontem para um segundo mandato continua vivendo no mundo de “faz de conta” que o marqueteiro João Santana criou para a campanha eleitoral, e trouxe de lá mais um lema que se choca com a realidade que a presidente insiste em negar.

Quando afirma que o projeto de Nação que representa prevaleceu nas urnas, ela entra em contradição com a admissão de que o país exige mudanças, que se propõe a realizar mesmo que afirme sempre que tudo vai às mil maravilhas. E deleta da memória que “fez o diabo” para se reeleger, utilizando ferramentas nada democráticas que nada têm a ver com um projeto de nação, mas com um projeto de poder.

“Brasil, Pátria Educadora” seria um bom mote para um governo renovador, se não fosse apenas um achado propagandístico, e refletisse um verdadeiro objetivo prioritário, desmentido logo de cara com a escolha do ex-governador Cid Gomes para o ministério da Educação, sem o menor contato com a área e sem projeto educacional digno de nome.

O improviso da escolha do ministro, que chegou a recusar o cargo, indicando o quanto lhe importa a “pátria educadora”, mostra bem que o projeto que a presidente Dilma anunciou ontem é oco de conteúdo, e entra na lista de mais um dos muitos passes de mágica com que a presidente se acostumou a ganhar eleições e a governar da boca para fora.

Ao tentar dar um sentido mais amplo ao dístico, afirmando que ele indica que “devemos buscar, em todas as ações do governo, um sentido formador, uma prática cidadã, um compromisso de ética e sentimento republicano”, a presidente Dilma só fez ampliar mais ainda a falsidade da afirmativa, pois a escolha do ministro da área, que será “a prioridade das prioridades”, deveu-se apenas à necessidade de dar um lugar de destaque ao PROS, um partido criado de improviso para dar abrigo à dissidência dos Gomes e permitir que fizessem a campanha de Dilma contra a candidatura original de Eduardo Campos do PSB.

Uma distorção do presidencialismo de coalizão que gerou escândalos como o mensalão e agora o petrolão, na prática do toma-lá-dá-cá que pode ser tudo, menos ético. E se o compromisso é com a ética republicana, como explicar o surgimento de escândalos de tamanha magnitude na Petrobras?

Quando se referiu ao esquema de corrupção na estatal, a presidente Dilma mais uma vez fugiu da realidade que a envolve diretamente, por ter sido a controladora da área nos últimos 12 anos de governos petistas, ao dizer que a empresa foi vítima de servidores que não souberam honrá-la.

Ora, a empresa foi vítima de uma armação política engendrada pelo Palácio do Planalto para financiar partidos políticos aliados, e o que aconteceu em consequência nada teve de ocasional ou dependeu deste ou daquele funcionário da Petrobras.

A empresa foi usada pelo PT como alimentadora de um esquema político que não quer largar o poder tão cedo. Ao longo de seu discurso no Congresso a presidente Dilma desfilou por um mundo paralelo em que parece ainda viver, sem assumir a responsabilidade pela situação caótica em que entregou o país para si mesma, e parecendo não se sentir responsável pela correção de rumos que terá que ser feita nesse segundo mandato.

O mais próximo de uma autocrítica, se quisermos ter boa vontade, foi quando reconheceu que as mudanças que precisam ser feitas dependem da credibilidade e da estabilidade da economia. Mas então se desdisse, afirmando que isso “nunca foi novidade”, pois sempre orientou suas ações pela centralidade do controle da inflação e o imperativo da disciplina fiscal.

Se sempre foi assim, o que aconteceu para que tudo desandasse nos quatro anos anteriores em que esteve à frente do governo que agora precisa de ajustes tão duros e prolongados? A única explicação plausível é que, ao contrário do que todos dizem, era o ministro Guido Mantega quem comandava a economia, e a presidente Dilma não tinha nada a ver com as decisões tomadas. Como na Petrobras.