quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"No centro da Lava Jato, Petrobras já encontra problemas para se financiar", por Revista VEJA

Notícia abaixo, crédito Revista Veja:

http://veja.abril.com.br/noticia/economia/no-centro-da-lava-jato-petrobras-ja-encontra-problemas-para-se-financiar


10/12/2014 - 23:11

Negócios
No centro da Lava Jato, Petrobras já encontra problemas para se financiar

Se os auditores não aprovarem os resultados anuais da companhia até abril, fontes do mercado financeiro avaliam que a empresa poderá ter de antecipar o pagamento de até 11 bilhões de dólares em títulos, além de saldar um empréstimo de 5,8 bilhões de dólares com um banco brasileiro

A Petrobras pode ter que aumentar os preços dos combustíveis, cortar gastos ou buscar uma injeção de capital por parte do governo no próximo ano, uma vez que o aprofundamento do escândalo de corrupção ameaça deixar a empresa temporariamente fora dos mercados de capitais.

No mês passado, a estatal atrasou a divulgação do resultado do terceiro trimestre após auditores se recusarem a assiná-lo, diante de alegações de que a empresa sistematicamente pagou mais por ativos, como as refinarias de Pasadena e Abreu e Lima, além de ter aceitado o superfaturamento de contratos com empreiteiras.

Se os auditores não aprovarem os resultados anuais da companhia até abril, fontes do mercado financeiro avaliam que a empresa poderá ter de antecipar o pagamento de até 11 bilhões de dólares em títulos, além de saldar um empréstimo de 5,8 bilhões de dólares com um banco brasileiro. Alguns contratos preveem a antecipação de pagamento caso o tomador de crédito se encontre diante de um cenário crítico de indisponibilidade financeira.

Contudo, poucos esperam que a Petrobras possa dar calote em sua dívida, uma vez que provavelmente deve negociar uma solução com os detentores de títulos e bancos. Mas é improvável que os investidores em títulos globais participem de qualquer nova emissão da Petrobras até que a empresa tenha informações financeiras auditadas adequadamente, afirmaram o UBS Securities e o Morgan Stanley & Co, em relatórios analíticos.

Isso significa que a empresa pode ter de buscar outras formas para financiar seu plano de negócios de cinco anos de 220 bilhões de dólares, o maior da indústria petrolífera mundial.


Embora a presidente Dilma Rousseff possa permitir que a Petrobras eleve os preços da gasolina no próximo ano, ela provavelmente resistiria a qualquer esforço de reduzir o plano, uma vez que faz parte fundamental do programa emblemático de investimentos de sua administração. Cerca de 70% do financiamento do plano já foi contratado, afirmou a Moody's Investors Service recentemente. "Leve em conta a investigação de corrupção, a percepção de risco e as restrições financeiras da Petrobras em curso, e você verá como a sua capacidade de geração de caixa está gravemente ameaçada", disse o executivo, que pediu para que seu nome fosse mantido em sigilo.

A dificuldade em delinear o financiamento ressalta os ventos contrários neste momento para a Petrobras, que há apenas 20 meses vendeu 11 bilhões de dólares em títulos, um recorde para uma empresa do mercado emergente. O escândalo de corrupção, juntamente com anos de desenfreada acumulação de dívida, está gerando preocupação de que a Petrobras possa perder seu cobiçado grau de investimento, elevando os custos de empréstimos.


Anunciada por autoridades na última década como a joia da coroa da economia do Brasil, a Petrobras tornou-se um símbolo da queda da boa-vontade com o país. A empresa planeja publicar os resultados não auditados do terceiro trimestre na sexta-feira, mas é pouco provável que isso amenize as preocupações sobre o impacto do escândalo de corrupção nas operações e nos planos de captação de recursos. "Eu acredito que nenhum investidor vai comprar ações ou títulos com o risco atual, pelo menos não sem a devida papelada auditada", disse Ulisses de Oliveira, que ajuda a administrar 400 milhões de dólares em títulos de dívida de mercados emergentes para a Galloway Gestora de Recursos, em São Paulo.

Os obstáculos ao financiamento vêm em um momento em que os preços do petróleo estão caindo e ameaçam a receita. O fluxo de caixa livre, uma medida de dinheiro excedente após os pagamentos aos detentores de títulos e ações, deve voltar a ficar positivo apenas em 2017, estimam os analistas. A Petrobras, que se recusou a comentar o assunto, ainda não definiu uma data para publicar resultados auditados.

Os bônus da Petrobras com vencimento em março de 2024 e cupom de 6,25% estão atualmente remunerando perto de 6,5%, o mais alto nível em cerca de um ano e meio. Esse rendimento está no mesmo patamar de emissores classificados abaixo do grau de investimento.

A Petrobras toma no mercado cerca de metade de seus gastos de capital de 40 bilhões de dólares por ano, em grande parte com a emissão de bônus. Mesmo se os bancos e investidores no Brasil não ligarem para riscos de concessão de crédito para a Petrobras, os mercados de crédito e de títulos locais são muito pequenos para suprir a empresa com o financiamento de que necessita para realizar seus projetos, disse outro executivo de banco. A empresa pode ainda recorrer ao BNDES, mas não está claro se o banco teria dinheiro suficiente para Petrobras. O BNDES não quis comentar.

A Petrobras pode pagar por suas operações por cerca de seis meses sem que tenha que recorrer ao mercado de dívida, disseram executivos da petroleira no mês passado. A empresa é a petrolífera mais endividada do mundo, com um passivo total de 140 bilhões de dólares, tem 54 bilhões de dólares em títulos em mercado. A dívida líquida está acima da meta de alavancagem de 2,5 vezes lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, e acima do limiar de 35% do capital próprio. "Com a recente queda dos preços do petróleo, que reduziu mais de 30% dos níveis de meados do ano, esperamos menor geração de caixa e isso vai tornar a empresa mais dependente da venda de ativos ou de dívida para financiar as despesas futuras com o desenvolvimento", disse a Moody´s.

(Com Estadão Conteúdo)