quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

"EUA: o novo emergente?", por Monica de Bolle, no Jornal "O Estado de São Paulo"

O Fato de eu considerar Monica de Bolle uma economista brilhante, não quer dizer que eu concorde sempre com ela

Abaixo, um ótimo texto de Monica de Bolle publicado hoje no Jornal "O Estado de São Paulo".

Todo o raciocínio bem sustentado, detalhadamente interligado, exceto por uma variável.

A independência do FED ou os eventuais e possíveis erros do atual planejamento econômico de Trump e suas inevitáveis consequências não vêm primeiro do que o modelo de "juros 0% eternos" praticado pelo FED da "Gestão anterior", essencialmente de dezembro-2008 a dezembro-2015, e que produziu, sem sombra de dúvidas, uma das maiores, senão a maior, bolha de ativos da história econômica mundial.

Tenhamos sempre isso em mente.....

Ainda que possamos vislumbrar a perda da independência do FED, o que certamente seria uma catástrofe, transformando os EUA em uma nação emergente, como diz a própria Mônica de Bolle, e um nível nebuloso para a economia americana diante de um afrouxamento fiscal, o "estado atual de coisas", com distorções gravíssimas em várias classes de ativos, não foi produzida pelo governo atual.


Vamos ao ótimo artigo de Mônica de Bolle

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,eua-o-novo-emergente,70001657037


EUA: o novo emergente?

E se não pudermos contar com a autonomia do Fed contra uma alta da inflação nos EUA?
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Monica de Bolle

08 Fevereiro 2017 | 05h00

No final da semana passada, Donald Trump assinou decreto que prevê o desmantelamento da Lei de Dodd-Frank, adotada em 2010. A Lei de Dodd-Frank redesenhou o arcabouço da regulação financeira nos EUA, cujas falhas foram parcialmente responsáveis pela crise de 2008. Embora a lei tenha se tornado bem mais complexa e de difícil implementação do que sua formulação original previa, é ela que hoje provê os obstáculos que impedem o repeteco altamente destrutivo de 2008 (ver A Reforma do Sistema Financeiro Americano, de Dionisio Dias Carneiro e Monica de Bolle). O desmantelamento pretendido por Trump – mais uma de suas promessas de campanha – aumentaria sensivelmente os riscos de que ocorra novo ciclo descontrolado de crédito, como o que antecedeu a última crise. Tal medida, junto com a expansão pretendida da política fiscal, e com investidas contra instituições, torna os EUA cada vez mais com cara de país emergente.

Antes de prosseguir, vale elencar as principais medidas econômicas no plano de Trump. São elas: (i) investir cerca de US$ 1 trilhão em infraestrutura, com o objetivo de criar empregos não só na construção civil, mas no setor de aço, atendendo às demandas dos Estados que formam o cinturão de ferro dos EUA; (ii) reduzir os impostos corporativos para 15% em média, dos 35% atuais, usando recursos provenientes da repatriação de 10% do lucro de empresas com operações fora dos EUA para financiar o corte; (iii) simplificar o sistema tributário corporativo reduzindo as faixas de tributação de sete para três, além de revogar os impostos sobre imóveis; (iv) reduzir o ônus regulatório, sobretudo o que pesa sobre as instituições financeiras, revogando partes da Lei de Dodd-Frank; (v) introduzir novas tarifas sobre importações, possivelmente na forma de um novo imposto para ajustar diferenças tarifárias transfronteiras; renegociar o Nafta; elevar para 45% as tarifas sobre os produtos chineses.
As medidas (i) a (iv), se implantadas conforme formuladas, provavelmente induziriam um forte ciclo de expansão fiscal e creditícia, um “boom” duplo qualitativamente bastante parecido com o que vimos no Brasil entre 2011 e 2014, minuciosamente detalhado em meu livro Como Matar a Borboleta- Azul: Uma Crônica da Era Dilma. Como hoje a taxa de desemprego americana está bastante baixa, o estímulo adicional produzido por uma expansão do crédito e da política fiscal poderia acabar desaguando em quadro de maior pressão inflacionária. Hoje, presume-se que o Banco Central americano, o Fed, agiria para impedir que a inflação subisse além dos 2% – a meta. Mas, e se essa presunção for ingênua? E se não pudermos contar com a autonomia da autoridade monetária americana, da mesma maneira que tivemos de abandonar a ideia de autonomia do BC brasileiro durante os anos Dilma?

A pergunta não é retórica. Na semana passada, em meio aos anúncios de decretos assinados e à confusão provocada pela proibição de vistos para sete países de maioria muçulmana, fato dos mais relevantes foi ofuscado. O líder do Congresso responsável pelo comitê que lida com assuntos do sistema financeiro enviou carta bastante contundente para a dirigente do Fed, Janet Yellen. Diz um trecho: “Apesar da mensagem bastante clara dada pelo presidente Donald Trump sobre a necessidade de priorizar os interesses da América nas negociações internacionais, parece que o Federal Reserve continua envolvido na negociação de padrões regulatórios internacionais com burocratas globais em terras estrangeiras, sem a devida transparência ou autoridade para fazê-lo. Isso é inaceitável”. Vejam bem: um importante congressista americano, responsável por assuntos financeiros, enviou uma carta ao Fed advertindo a autoridade monetária e dizendo claramente que ela não tem autonomia para conduzir negociações que deveriam estar em sua alçada. Para um país desenvolvido, isso é inaceitável.
Já afirmei aqui nesse espaço que as políticas econômicas de Trump têm um quê de Nova Matriz Econômica. Dessa vez, arrisco-me a ir mais longe: os EUA estão perto de tornar-se uma verdadeira potência emergente. Todos sabemos o que pode acontecer com potências emergentes. Afinal, já fomos uma delas.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University