quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"Agonia grega....Os abalos europeus em mundo desorientado trazem possíveis choques para nós", por Monica de Bolle, no Jornal "O Estado de São Paulo"

Ótimo artigo da economista Monica de Bolle publicado hoje no Jornal "O Estado de São Paulo"

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,agonia-grega,70001665999

Agonia grega

Os abalos europeus em mundo desorientado trazem possíveis choques para nós
        
Monica De Bolle*

15 Fevereiro 2017 | 05h00

Segundo os dicionários, agonia é a fase que precede imediatamente a morte, caracterizada pela perda gradual ou súbita das funções vitais. Agonia pode também ser definida como tormento ou angústia difíceis de aguentar por muito tempo. Passados sete anos da eclosão, a crise grega acaba de entrar em novo estado de agonia. Difícil saber se dessa vez trata-se do estado que precede a separação do resto da zona do euro, ou se é mais uma instância de angústia nesses sete longos anos em que pouco progresso houve.

O FMI declarou recentemente que a dívida grega é “altamente insustentável”. De acordo com o vernáculo da instituição para caracterizar as trajetórias das dívidas de um país, elas podem ser sustentáveis, fronteiriçamente sustentáveis (“borderline sustainable”), insustentáveis, ou altamente insustentáveis (“highly unsustainable”). Se o leitor que acaba de passar os olhos nessas linhas encontrou nas nomenclaturas dose exemplar de vagueza, advirto que o “fundês” – idioma corrente da instituição situada em Washington – é proposital. Países com dívidas “altamente insustentáveis” são aqueles para os quais o FMI julga ser inevitável uma reestruturação. A Grécia concluiu operação de reestruturação da dívida pública em 2012, com modesta redução do valor presente da dívida, o que, à época se dizia, elevava o risco de que reestruturações futuras. Cinco anos depois, o problema é pior.
A dívida da Grécia, hoje, soma ¤ 326 bilhões, ou aproximadamente 180% do PIB. Cerca de ¤ 226 bilhões – ou uns 30% do total da dívida pública – é devido aos seguintes credores: o Fundo de Estabilidade Financeira Europeu (EFSF) e seu sucessor, o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM); ao Banco Central Europeu; aos governos da zona do euro. Aos credores privados, a Grécia deve ¤ 40 bilhões, enquanto ao FMI, suas obrigações somam ¤ 19 bilhões, ou uns 6% da dívida total. Nova reetruturação da dívida grega recairia, principalmente, sobre os governos da zona do euro e sobre as principais instituições da união monetária. Não surpreende, portanto, que os governos europeus tenham expressado visão oposta à do FMI, insistindo que a dívida grega não é tão insustentável assim, que “altamente insustentável” é um exagero.

Além de divergirem sobre o grau de insustentabilidade, FMI e governos europeus têm posições para lá de diferentes em relação ao que a Grécia é capaz em termos de ajustes fiscais. Diz o FMI que o país mediterrâneo não tem capacidade de gerar superávits primários superiores a 1,5% do PIB, o que não produziria uma queda da dívida ao longo do tempo. Na contramão, a Comissão Europeia insiste que a Grécia pode produzir superávit de 3,5% do PIB até 2018, e de sustentá-lo nesse nível por um tempo, o que levaria a uma queda da razão dívida/PIB ao longo dos próximos muitos anos. No cerne dessa divergência estão hipóteses acerca da capacidade política de gerar vultosos superávits por anos a fio. Alguns governos europeus argumentam ser isso possível. O FMI, profundo conhecedor do fenômeno conhecido como “fadiga do ajuste” que costuma se apoderar de países que tentam o caminho da austeridade extrema por tempo indeterminado em meio a condições econômicas precárias, não considera plausível o cenário da Comissão Europeia. Está, portanto, dado o impasse.

Contudo, uma vez que são os governos europeus os principais credores da Grécia, o mais provável é que sejam vitoriosos ao perseverar no caminho de maior agonia, elevando as chances de que o divórcio se dê em algum momento, quando a população não mais aguentar. Os tempos não são auspiciosos para tal desenlace, isto é, uma fragmentação ainda que amplamente esperada da zona do euro abalaria ainda mais o bloco no mundo pós-Brexit, com Trump, e contenciosas eleições na França, na Itália, e na Alemanha em 2017.

Não tenho escrito sobre o Brasil – voltarei a analisar as agruras nacionais em breve. Deixo aqui o alerta: a agonia da Grécia traz valiosas lições para nós. Os abalos europeus em mundo desorientado trazem possíveis choques para nós. O otimismo brasileiro está para lá de exagerado. Mas, talvez seja apenas alegria de carnaval.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute For International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University