quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

"Infelizmente, quem vai pagar a conta é a sociedade. Ela vai ter de carregar, sustentar, Estados incapazes de lhe oferecer os serviços básicos necessários.", por Marcos Lisboa, Presidente do Insper e ex-Secretário de Política Econômica, no Jornal "O Estado de São Paulo"

Abaixo, trechos da entrevista de Marcos Lisboa, Presidente do Insper e ex-Secretário de Política Econômica, concedida ao Jornal "O Estado de São Paulo" e publicada hoje.

Ela trata, essencialmente, do que foi aprovado ontem no Congresso em relação aos gastos dos Estados e suas implicações

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,quem-vai-pagar-a-conta-e-a-sociedade,10000095762


‘Quem vai pagar a conta é a sociedade’


Segundo o economista, Estados precisam fazer reformas ou não vão ter dinheiro para oferecer os serviços básicos

Alexa Salomão

21 Dezembro 2016 | 05h00

O economista Marcos Lisboa, presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, se espantou com a aprovação do projeto de renegociação das dívidas dos Estados sem as contrapartidas que tinham sido previamente acertadas. “Querem empurrar a conta para o outro que vier lá na frente, na próxima eleição”, diz. Lisboa lembra que essa prática, foi responsável por aprofundar a crise atual e vai agravar ainda mais o cenário: “Ao invés de quimioterapia, querem dar anestesia. Assim não tem cura”. A seguir trechos da entrevista que concedeu ao Estado.

Como o sr. viu a aprovação do pacote de socorro aos Estados sem as contrapartidas?

Com muita preocupação. A impressão é que desejam apenas aumentar o endividamento e transferir o problema para o outro que vier lá na frente, na próxima eleição. Vários Estados já são incapazes de pagar as suas despesas correntes e essas despesas vão continuar a crescer. Aí aparecem soluções como securitização de dívidas a receber, de royalties de petróleo. No fundo, estão vendendo receita futura para pagar receita corrente. Ou seja: os problemas vão continuar.

Alguns deputados alegaram que as contrapartidas eram “draconianas” e feriam “direitos trabalhistas”. Como o sr. vê esses argumentos?

O que fere os direitos da sociedade é a falta de responsabilidade de gestores públicos que deixam os problemas atingirem o nível de gravidade que vemos hoje. Existe um componente surpreendente nessa crise. Há anos, o problema da previdência dos Estados é conhecido. Há anos, a gente sabe que muitos funcionários recebem acima do teto. Há anos era certo que as Previdências dos Estados se tornariam insustentáveis. Há anos estão empurrando a solução, não fazem as reformas e as mudanças estruturais necessárias. Em 2013 já tinham aumentado endividamento, com aval da União, que é corresponsável por toda essa crise que estamos vendo. Infelizmente, quem vai pagar a conta é a sociedade. Ela vai ter de carregar, sustentar, Estados incapazes de lhe oferecer os serviços básicos necessários.