segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"Tempo sombrio", por Miriam Leitão, em sua coluna no Jornal "O Globo"

Artigo publicado ontem por Miriam Leitão, em sua coluna no Jornal "O Globo"

http://blogs.oglobo.globo.com/miriam-leitao/post/tempo-sombrio.html

Tempo sombrio

POR MÍRIAM LEITÃO13/11/2016 09:00

Entramos em um momento sombrio da humanidade. As palavras amenas ditas por Donald Trump não indicam moderação. São só a natural defesa da união em torno dele. Trump já nomeou pessoas do lobby do petróleo para a transição na energia e no meio ambiente e avisou que vai acabar com o programa de saúde de Obama. Ele não tem poder para fazer tudo o que disse, mas o que fizer será estrago suficiente.

Nestes primeiros dias pós-eleição, Trump tem usado palavras suaves em relação aos ex-adversários na campanha — elogiou Hillary e disse que pode pedir conselhos a Obama — mas tem feito escolhas que confirmam os piores temores sobre ele. Parte das ofensas que espalhou contra diversos grupos era estratégia de marketing copiada dos reality shows nos quais quem grita e ataca mais captura mais atenção. Mas além das frases bizarras, ele defendeu políticas que concretamente representam retrocesso. Nem todas são exequíveis, mas até a tentativa já fará estrago.

Na questão ambiental e climática, tem sido feito um trabalho demorado de convencimento das empresas para adotar novos padrões de produção e uso de energia para reduzir as emissões. Na era Bush, foram muitos os estudos financiados pela indústria do petróleo e carvão que influenciaram a política pública sobre a mudança climática. Oito anos depois, os Estados Unidos podem voltar para um tempo ainda mais anacrônico. Ao indicar que nomeará dois lobistas do setor de petróleo para cuidar de energia e meio ambiente ele deixou claro que está falando sério sobre revogar as escolhas feitas pelo país nos últimos anos.

Myron Ebell e Mike McKenna formam a dupla da sujeira em duas áreas fundamentais: ambiental e energia. A EPA, agência ambiental americana, foi muito fortalecida no governo Obama em seus poderes regulatórios. Uma das ideias defendidas por Trump era reduzir a sua força. Ebell é de uma ONG financiada pela indústria petrolífera e dirige um grupo de entidades — Coalizão das Cabeças Frias — cujo trabalho é denunciar o alarmismo em torno da mudança climática e lutar contra a substituição dos combustíveis fósseis. McKenna coordena o grupo de transição para energia. Ele é dono de uma consultoria que assessora empresas do setor de petróleo.

O jornal “New York Times” alertou para o fato de que Trump nega, a cada escolha para o grupo de transição, tudo o que falou contra os lobistas de Washington. Ele fez discurso moralista contra a corrupção e a relação promíscua entre as empresas e os políticos. Mas até agora nomeou vários lobistas. Um exemplo dado pelo jornal: Jeffrey Eisenach, que trabalhou anos defendendo os interesses da Verizon, lidera o grupo que vai escolher os nomes para a Comissão Federal de Telecomunicações.

O mundo começou a semana pensando em como ir além de Paris, em Marrakesh, onde está reunida a COP 22. A vitória do ano passado em Paris permitiu o acordo que durante este ano foi firmado por 175 países e entrou em vigor. Mas é preciso buscar novos compromissos. O esforço até agora foi bom, mas insuficiente. O que parecia ser o piso para mais ambições agora não está mais garantido. Como o segundo país de maior emissão, o primeiro em emissão per capita, os Estados Unidos são o país-chave para se obter sucesso no acordo climático. O presidente eleito passou a campanha negando que o problema exista e se cercou de pessoas que tem interesses diretos com a indústria do carbono e também negam a mudança climática. A regulação da EPA e as escolhas da Secretaria de Energia podem fazer um enorme estrago.

No comércio, haverá limites para o seu protecionismo. A estrutura produtiva dos Estados Unidos depende da importação, por isso a barreira ao produto importado terá reação da própria indústria americana. Mesmo assim, seu discurso anticomércio foi muito forte durante a campanha e ele tomará medidas nessa direção num momento em que o comércio cresce abaixo do PIB mundial pela primeira vez em 15 anos.

Hoje toda a esperança que recai sobre Trump é construída em cima de uma negação: a de que suas ideias são tão ruins, em tantas áreas, que ele não pode estar falando sério. Mas, em muitos casos, está sim. E é isso que nos levará ao tempo sombrio.

(Com Alvaro Gribel, de São Paulo)