domingo, 20 de novembro de 2016

Quanto custou o "Risco Lula-2003" ?

Anteontem, sexta-feira, levantei a seguinte questão:

"Quanto custou o "risco Lula-2003" e o "Risco Dilma-Impeachment 2015-2016" ?

Quando falamos de curto prazo, é sempre um pouco mais simples quantificar esse tipo de "variável".

Por que ?

Por que temos o "visual" das variáveis envolvidas "mais de perto".

Afinal, o "preço de moeda" é resultado de alguns "pontos-chave", de "variáveis-chave"

Assim, para quantificar o "Risco Dilma-Impeachment 2015-2016", apenas utilizei como parâmetro o "índice dólar", que é, essencialmente, o "preço do dólar americano frente uma cesta de moedas (euro, iene japonês, libra esterlina, dolar canadense, coroa sueca e franco suíco), excluindo algumas variáveis que "tomei estáveis" nesse período

Ou seja, se na virada de 2015 para 2016 até às vésperas do impeachment de Dilma, o "dólar x real" atingiu a faixa de 4,15 com o "indice dólar" na faixa de 100, e hoje, o mesmo índice se encontra na mesma faixa (101) , com o "dólar x real" em 3.39-3,40, a diferença seria o "Risco Dilma-Impeachment". Isto é, um "risco quantificado" de aproximadamente R$ 0,80 por cada dólar americano

Para o "Risco-Lula 2003", temos um quadro completamente diferente

Primeiro, é preciso entender o "porque" do"Risco Lula-2003" ?

Ora, porque se voltarmos no tempo, veremos que a eleição de Lula, então candidato do Partido dos Trabalhadores em 2002, foi recheada de expectativas quanto a seu pensamento em relação a dívida externa brasileira.

Olhando seu passado e de seu partido, a promessa de uma moratória da dívida externa sempre foi recorrente. Portanto, às vésperas das eleições de 2002, principalmente quando a possibilidade de sua vitória se tornou real, a expectativa de uma moratória aumentou.

Esse era o "Risco Lula-2003"; uma vitória sua significaria um risco real de moratória.

Assim, várias classes de ativos começaram a refletir tal possibilidade; o dólar não foi diferente

Abaixo, podemos ver a trajetória do "dólar x real" dos últimos 20 anos e a forte alta no final de 2002 (gráfico dólar x real na parte de cima e do "índice dólar" na parte debaixo




Obviamente, o período 1994-1999 não é uma referência "pesada", já que havia uma política de "câmbio fixo"; as desvalorizações aconteciam, mas controladas pelo Banco Central dentro do contexto de "âncora cambial" do "Plano Real

A partir de 1999, o câmbio é liberado dentro de um cenário mundial turbulento, pós Crise da Ásia em 1997 e Default da Rússia em 1998.

No início de 1999, logo após a liberação do câmbio, a faixa de 2,15 é testada; a partir, daí, o que se vê é uma forte atuação do Banco Central, que joga a taxa de juros na "estratosfera" (45%  ao ano ) e um breve período de calmaria que dura pouco mais de 1 ano e meio, o suficiente para jogar o "dólar x real "de volta a faixa de 1,75.

A partir daí, tudo muda, já que também os americanos começam a aumentar seus juros, dinâmica que acompanhou o estouro da "Bolha da Internet"

Então, o Brasil não só foi pressionado pela própria mudança na política cambial, mas, também pela dinâmica altista nos juros americanos.

Assim, como pode ser visto acima, o "dólar x real" atinge a faixa de 2,80 junto com a forte alta no "índice dolar" que atingiu a faixa de 115

Quantificar o "risco Lula-2003" passa a ser muito mais complicado, porque, diferente do cenário atual 2015-2016, as "condições de temperatura e pressão" não eram "estáveis". 

Num curto período de tempo, isto é, entre 2000 e 2003-2004, não só o Brasil passou por turbulências internas, como a "liberação do câmbio" e forte alta nas taxas de juros, como o mundo assistiu uma dinâmica altista dos juros americanos que mexeu, sobremaneira, com o dólar americano e seu "indice dólar", reflexo de sua força frente a outras moedas.

Pra termos idéia da dificuldade, temos o seguinte:

Quando o nervosimos atingiu o ápice, em outubro de 2002, o "dólar x real" bateu 4,01; aí, o índicde dólar se situava na faixa de 110. Ao final do primeiro ano do "Governo Lula", com um pouco mais de clareza de seu governo, e de uma "não-moratória externa", o "índice dólar" havia caido para a faixa de 100, enquanto o "dólar x real" recuara para a faixa de 2,80.

A faixa de 100 atingida pelo "indice dólar" nesse momento era a mesma do início de 2000; 100 por 100 deveria levar o "nosso dólar x real" para a mesma faixa de 2000, que era 1,80; e não foi isso que ocorreu, o recuo apenas foi para 2,80, como citado acima

Essa dificuldade muito possivelmente tem a ver com o gráfico abaixo de nossa "curva de juros".

Como disse, aquele período foi marcado por mudanças bruscas em inúmeras variáveis importantes que impactam diretamente no câmbio;uma delas, "nossa taxa selic"

Vejam que no período conturbado de "liberação do câmbio", já com o Brasil sofrendo fortes perdas em suas "Reservas Internacionais" , o Banco Central leva a taxa de juros para 45% ao ano para conter o dólar. Em seguida, uma queda forte e uma certa estabilização. 

Às vésperas das eleições, com o "risco Lula" subindo, nova alta, para uma faixa próxima a 25%


Taxa Selic anualizada, período 20 anos


Fonte: Banco Central



Volto a dizer, a diferença "45-25" nessa curva de juros provavelmente impactou na definição do ponto de equilíbrio exato do "dólar x real"

A pergunta que fica é:

Se Armínio Fraga, Presidente do Banco Central naquele início de 1999, leva a taxa de juros apenas pra faixa de 25% ao invés de 45%, teria obtido sucesso em trazer o dólar para a casa dos 1,80, como o fez  ?

Provavelmente, não.....

Como vemos acima, ao final do primeiro ano do Governo Lula, a Selic ainda se situa em patamar excessivamente alto, ali por volta de 15%-20%, 

Isso foi suficiente apenas para levar o dólar a 2,80, com uma queda de cerca de 10% do índice dolar

Aqui, um modelo mais "elaborado" teria que ser construido para "quantificar" o custo do "Risco-Lula-2003"

Se supusermos que o Banco Central não conseguisse conter o dólar na faixa de 2,00, com juros a 15%-20% em 1999-2000, e a disparada mais coerente fosse a 2,80, e não "apenas" 2,15, o "custo" Risco-Lula-2003" foi provavelmente algo muito mais entre "esses 2,80 e 4,00 "menos a queda de 10% do "índice dolar no período"".......lembremos que, como pode ser visto no gráfico do "índice dolar" acima, o índice cai de 115 pra faixa de 100 de 2002 pra inicio de 2004

Esse seria um "modelo factível"....curiosamente, os mesmos "R$ 0,80" que encontramos na "equação" do "Risco-Dilma-Impeachment"

A queda que se viu mais à frente do "dólar x real" faz parte de novas discussões que podemos ter em outras datas, porém, resumidamente, o que podemos adiantar é que, novas variáveis foram inseridas de 2004 em diante; mais precisamente a Bolha de Commodities que irrigou o mercado brasileiro de dólares.