domingo, 13 de novembro de 2016

"Quando esse tipo de coisa acontece, um país muito endividado, como o nosso, sofre. Certamente, não seremos os únicos. A China, hoje no topo dessa extraordinária expansão de crédito, que merecia, talvez, a qualificação de bolha, vai sentir. E se a China sentir, cria uma onda de pressões que vão se autoalimentar.", por Armínio Fraga, em relação a eleição americana, em entrevista ao Jornal "O Estado de São Paulo"

Ex Presidente do Banco Central no segundo mandato do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga dá uma excelente entrevista ao Jornal "O Estado de São Paulo", publicada hoje

Falou de tudo.....de Brasil...economia Brasileira....política econômica....e, é claro, da eleição nos EUA....

O título da entrevista é 

"‘A máquina de crescimento quebrou’

Eu preferi, colocar no titulo do post algo mais relacionada ao possível impacto das políticas anunciadas por Donald Trump

Vamos a parte da entrevista.

Toda a entrevista, aqui :http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-maquina-de-crescimento-quebrou,10000088080


‘A máquina de crescimento quebrou’

Para Arminio Fraga, economia está frágil, crise política não foi debelada e, para complicar, Lava Jato e Trump ainda podem atrapalhar a retomada
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Alexa Salomão

13 Novembro 2016 | 06h00

Foto: ESTADAO CONTEUDO


O ex-presidente do Banco Central, o economista Arminio Fraga, é pragmático. O País melhorou depois do impeachment e o governo de Michel Temer segue na direção certa. “A mudança foi impressionante. O Brasil como estava, ia quebrar três vezes mais. A gente ia se espatifar”, diz ele. Mas o cenário ainda é frágil e ficou mais complicado com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a expectativa de novas delações na Lava Jato: “Estamos entrando num período de muita incerteza.” A seguir os principais trechos de sua entrevista ao Estado.

Estadão: Qual o efeito da eleição de Donald Trump nos EUA para a recuperação da economia brasileira?

Armínio Fraga: Há um certo exercício de futurologia nisso, mas, se ele for adiante com o plano de fazer uma grande expansão fiscal, certamente vai nos prejudicar. Não podemos nos iludir: nossa situação ainda é bastante frágil. Estamos sinalizando com reformas importantes, mas uma virada na área fiscal – supondo-se que tudo seja aprovado – começa daqui a uns cinco anos.

Vamos perder investidores, é isso?

Quando esse tipo de coisa acontece, um país muito endividado, como o nosso, sofre. Certamente, não seremos os únicos. A China, hoje no topo dessa extraordinária expansão de crédito, que merecia, talvez, a qualificação de bolha, vai sentir. E se a China sentir, cria uma onda de pressões que vão se autoalimentar.

O próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reduziu a projeção de crescimento de 1,6% para 1% no ano que vem. O que houve: foram otimistas ou surgiram outros imprevistos?

Mesmo uma bola murcha quica. É razoável que, na saída de uma recessão tão profunda e violenta como a nossa, essas projeções sejam móveis. O que está claro é que, quando se faz a conta dos vários componentes do PIB, falta alguma coisa.

E o que falta?

Do lado do consumo, as famílias estão endividadas e há desemprego. Isso cria uma insegurança danada. Em muitos setores, as empresas exibem capacidade ociosa. Não seria natural sair correndo para um novo ciclo de investimentos. A infraestrutura, que é o carro-chefe de uma recuperação, responde lentamente, porque é tudo difícil ali: é preciso fazer projetos, tirar licenças, é da natureza da coisa. Infelizmente, a máquina de crescimento do Brasil está quebrada. A tudo isso se sobrepõe a incerteza. Precisamos de um ambiente que gere entusiasmo. Mas a confiança não vem assim... Se fosse, a saída da ex-presidente já teria dado uma virada. E estamos entrando num período de muito mais incerteza.

Como assim?

Vamos ter mais incerteza política. Na Lava Jato, estão reabrindo delações antigas e chegando muitas delações novas. Pelo o que se diz e pelo que se lê, vão afetar atores políticos da maior importância. Aí, você olha para mundo e se assusta: eleição de Trump, Brexit, Erdogan na Turquia, o Putin com o estilão dele na Rússia, Xi Jinping na China. Existe uma onda de populismo, com um pouco de conservadorismo, e nós aqui estamos expostos a isso. Mas, como eu disse, nem precisávamos dar esse giro pelo mundo. Temos muito aqui com que nos preocupar, ao vivo e a cores.

A situação dos Estados é outro componente de incerteza? Em particular o Rio, que teve uma semana, digamos, com cores fortes?

Eu vivo aqui no Rio. Sinto a situação. É o caso mais grave, mas não é o único. Esse quadro foi estimulado pelo governo anterior, que liberou a gastança, e agora se aprofunda com a recessão. Mas, nisso, o governo federal não tem como ajudar. A situação fiscal da União é muito grave também.


O sr. aceitaria novamente convite para ser ministro da Fazenda?

Não sei. Nem tenho tempo para pensar nisso. Sabe o que acontece? Com o tempo, o sarrafo vai subindo. Quando fui presidente do Banco Central, eu tinha 40 e poucos anos. Agora, estou com 59. A gente vai ficando mais crítico e mais exigente. Estou contente me dedicando à Gávea Investimentos e, em menor escala, a temas acadêmicos e filantrópicos.