terça-feira, 11 de outubro de 2016

O Cisne Negro não é o Deutsche-Bank, e sim uma crise bancária nos países emergentes

Comecemos o artigo de uma forma direta.

Olhem para o gráfico abaixo, gráfico em que mostra a dinâmica das "recuperações judiciais" em curso no Brasil nos últimos meses.




Algum sistema bancário sobrevive a esse quadro, a essa dinâmica sem arranhões sérios ?

Você pode postergar, "contar até 3", rezar, teimar, relevar, mas o paredão é logo ali na frente.

Nenhum, absolutamente nenhum sistema bancário resiste a isso sem se machucar gravemente no médio-longo prazo.

O que vocês acham que aconteceu no Brasil nos últimos 3-4-5 anos ?

Alguém já parou, parou mesmo pra pensar sobre o que aconteceu ?

Sobre o que cada brasileiro comprava em 2010-2011 e compra agora ?

Uma parcela forte, considerável da sociedade brasileira foi completamente dizimada de patamares medianamente básicos de consumo

Parte de um estudo de autoria de Adriano Pitoli, economista, e diretor da área de Análise Setorial e Inteligência de Mercado da Consultoria Tendências, foi publicado em matéria do Jornal "O Gobo" no último domingo"

Vamos a parte dela:

http://oglobo.globo.com/economia/um-milhao-de-familias-entrara-para-as-classes-e-ate-2025-20261906

Título:"Um milhão de famílias entrará para as classes D e E até 2025....Mesmo com retomada da economia, haverá expansão da pobreza"

"Com a recessão e a alta da inflação, os ganhos desse período se perderam de 2014 a 2016, período em que as classes D e E tiveram aumento de 3,5 milhões de famílias. Com base no estudo, nem mesmo uma década será capaz de aliviar integralmente os efeitos da recessão.......Quando você conduz mal a política econômica, deixa a inflação subir, as mais prejudicadas são as famílias de menor renda..........Há muita coisa errada para consertar na economia. O mercado vai continuar muito fraco. As empresas vão demorar a voltar a contratar. Daqui por diante não tem mágica. As famílias vão ter de se acostumar a viver com menos por mais tempo — resume Pitoli."


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Equeçamos o Brasil momentaneamente

Em estudo-artigo apresentado em setembro do ano passado, o FMI alertou para o a explosão dos níveis de endividamento das empresas nos mercados emergentes.

Os 2 gráficos expostos no estudo e que resumem sua essência podem ser vistos abaixo, separando-os em valores absolutos e relativos ao PIB nos diversos mercados:


Como chegamos a assustador quadro ?

O próprio FMI dá sua versão correlacionando-o às baixas taxas de juros praticadas nos últimos anos no mundo desenvolvido.

Diz parte do texto:

http://www.imf.org/en/news/articles/2015/09/28/04/53/sopol092915b

" Low interest rates in advanced economies such as the United States, Europe, and Japan have encouraged this borrowing. The increase in firms’ debt-to-asset ratio, commonly known as leverage, has often included a higher share of foreign-currency liabilities."


Mas, é possível ir além.

A bolha de commodities que percorreu o período 2006-2011 é também grande vetor

Uma bolha de commodities associada as irresponsáveis politicas monetárias dos Bancos Centrais do países desenvolvidos, mais especificamente , EUA, Europa e Japão, provocou uma outra gigantesca bolha, a "Bolha de Crédito"; bolha essa que ainda conseguiu ser jogada na estratosfera quando misturou-se a governos populistas, caso do Brasil.

Dinâmicas como essas são destrinchadas e estudadas por alguns acadêmicos,

Alguns dessas considerações foram expostas no livro de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff,  "Oito Séculos de Delírios Financeiros", e já discutidas por mim

Vale a pena revê-las em parte.

""A maioria dos países  (61%) registra alta propensão a passar por crises bancárias nas proximidades de períodos de bonança; essa percentagem seria mais alta se considerassem dados pós-2007....
Essas descobertas sobre bonanças de fluxos de capitais também são consistentes com outras regularidades empíricas, identificadas em torno dos ciclos de crédito.....
Mendoza e Terrones..... com base em abordagem muito diferente do que acabamos de discutir, constataram que os boons de crédito em mercados emergentes geralmente se seguem a surtos nas entradas de capital. Também concluíram que, embora nem todos os boons de crédito terminem em crises financeiras, a maioria das crises em mercados emergentes foi precedida por boons de crédito ("Oito Séculos de Delírios Financeiros, Ed.2010, págs 157 e 158)"


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Como toda essa questão complexa se revela para os agentes econômicos no dia a dia....no mês a mês, no ano a ano ?

No curto prazo, de fato, os dados que permeiam a teia do mercado financeiro parecem carregar um alto teor de aleatoriedade.

Porém, no longo prazo, não é bem isso que vemos...

Há padrôes que "saltam aos olhos" em vários mercados, em várias situações, em várias realidades.

Por exemplo, diferente do que se possa imaginar, a alta do  "Ouro" não coincide com graves crises financeiras ao longo do tempo.

Vejam a trajetória do "Ouro" nas últimas 3 Grandes Crises Financeiras, a "Crise da Dívida da América Latina nos anos 80", a "Crise da Ásia" no final dos anos 90, e a "Crise do Subprime":

Ouro, período 100 anos


Fonte: Macrotrends.net


Quando olhamos Crises Financeiras agudas, 2 padrões nos chamam a atenção

A força do Dólar e a dinâmica do TED, o "Spread entre a taxas de juros londrina Libor de 3 meses e o título do tesouro americano de 3 meses"

Reparem no "TED" nas 3 últimas grandes crises, a "Crise da Dívida da América Latina nos anos 80", a "Crise da Ásia" no final dos anos 90, e a "Crise do Subprime":

TED, Período 30 anos


Fonte: Federal Reserve Bank of St Louis



Agora, vamos ao índice "dólar", um "índice" composto por uma cesta de moedas

Reparem no "índice Dólar", principalmente em 2 das 3 últimas grandes crises, a "Crise da Dívida da América Latina nos anos 80"e a "Crise da Ásia" no final dos anos 90


Índice Dólar, período 35 anos

Fonte: Tradingeconomics.com

Voltem os olhos para os 2 graficos acima.....

TED em clara dinâmica altista, "andando" sobre os níveis de ruptura-divisores clássicos-históricos de 60 pontos-base, nível de risco excessivamente alto

Voltem a atenção para o "dólar" rompendo uma Linha de Tendência de baixa de 30 anos


Por curiosidade, vamos ao "dólar" no SEMANAL, período 4 anos


Por fim, observem a periodicidade das Crises Financeiras dos últimos 40 anos.

Há uma incrível "coincidência", um padrão de recorrência de crises que gira em intervalos de 10 anos...

Ápice da Crise da Dívida da América Latina -1985-1986-1987.......Brasil decretou, por exemplo, a Moratória da Dívida Externa em 1987

Crise da Ásia - 1997

Crise do Subprime - 2007-2008

E, agora ? 

2017-2018 ?

Todos olham para o Deutsche Bank.

Como disse Nassim Taleb em seu livro "A Lógica do Cisne Negro", "Cisnes Cinzas" existem em muito mais quantidade.

Talvez o "Deutsche" seja um "Cisne Cinza"

Talvez os mercados emergentes, atolados em dívidas corporativas colossais, sob ambientes cujas dinâmicas econômicas desafiam os mais otimistas, sejam de fato o "Cisne Negro" que emergirá.

Quem ?

Brasil , China, Ásia....quem  ?