sábado, 17 de setembro de 2016

"Recomeço tênue", por Miriam Leitão

Artigo publicado hoje por Miriam Leitão em sua coluna no Jornal "O Globo"

http://blogs.oglobo.globo.com/miriam-leitao/post/recomeco-tenue.html


Recomeço tênue

POR MÍRIAM LEITÃO

17/09/2016 09:00

Os sinais de estabilização da economia estão chegando aos indicadores setoriais. Tudo é bem tênue, mas os últimos dados mostram que os setores pararam de cair ou tem um começo de elevação. Indústria, comércio e serviços ainda apontam quedas fortes quando comparados com 12 meses atrás, mas estão estáveis sobre o início do ano. O empresário Abílio Diniz afirma que está vindo muito investidor para o Brasil.

Entrevistei Abílio Diniz no programa da Globonews. Ele apoiou os governos de Lula e Dilma e agora apoia Michel Temer. Não vê contradição nisso. Afirma que o PT acertou quando incluiu milhões de brasileiros no consumo e agora acha que Temer comandará a agenda de reformas. No dia que eu o entrevistei, ele disse que tinha recebido um grande fundo de investimento estrangeiro na sua empresa de participações, a Península.

— O que você acha que eles vieram fazer? Querem investir no país — acredita o empresário.

Pode ser, mas há muitas dúvidas no cenário brasileiro, desde incertezas políticas até indefinições sobre o que acontecerá na economia. Ainda é cedo para falar de recuperação, mas já aparecem os primeiros sinais de fim do ciclo de retração. A mudança não é linear, ela oscila: esta semana foi divulgado que as vendas de varejo caíram em julho, na mesma proporção que haviam subido em junho. Números negativos e positivos vão se alternar, mas as quedas têm perdido força.

Os três gráficos mostram o comportamento da indústria, do comércio e dos serviços em número índice, descontados os efeitos sazonais, pelo IBGE. O comércio despencou de 118,2 pontos, em novembro de 2014, para 104,4, em janeiro de 2016, acumulando um tombo de 11,6%. De janeiro a julho, entretanto, ficou sempre crescendo em um mês e caindo no seguinte. Na soma final, o índice ficou em 104,1, praticamente estável sobre janeiro.

Na indústria, houve seis meses de alta e um de forte queda. O setor foi o mais atingido pela crise e acumulou um tombo gigantesco no período. A retomada será demorada. Mas se em dezembro do ano passado marcava 85,1 pontos, em julho foi para 86,5. Um crescimento tímido, mas que indica a mesma tendência de encerramento do pior do ciclo de retração.

O indicador do setor de serviços medido pelo IBGE engloba os serviços prestados às famílias, transporte aéreo, rodoviário, alojamentos, alimentação, tecnologia da informação e vários outros. É importante porque é um dos maiores empregadores da economia. Em setembro de 2014, o índice marcava 112 pontos, o auge da série histórica. Começou, então, um longo período de queda, para chegar a 102,7 pontos em fevereiro deste ano. A retração nesse período chegou a 8,3%. Já em julho, o número havia subido para 103,2 pontos.

De todos os índices, o que demorará mais a estabilizar, infelizmente, é o do emprego. A tendência é continuar piorando, inclusive no segundo semestre, quando normalmente há uma melhora sazonal. Esta saída da crise é mais lenta pelo muito que a economia caiu e pela força da crise política que elevou a incerteza.