domingo, 4 de setembro de 2016

"Os piqueniques na Quinta da Boa Vista e na Praia do Flamengo (Zona Sul do Rio) são as opções de lazer no momento, diz Hilaine: — Coloca requeijão com temperos, salgadinho e passa o dia inteiro.", em o Jornal "O Globo"

A crise, o descontrole inflacionário, a perda do poder aquisitivo e o desastre na Economia Brasileira no dia a dia do brasileiro podem ser vistos na matéria abaixo publicada hoje no Jornal "O Globo":

http://oglobo.globo.com/economia/na-crise-jantar-fora-so-na-varanda-lazer-so-se-for-de-graca-20049087

Na crise, jantar fora, só na varanda; lazer, só se for de graça
Diversão em geral entra na categoria de supérfluos e perde espaço no orçamento

POR CÁSSIA ALMEIDA / MARCELLO CORRÊA 04/09/2016 4:30

RIO - O lazer foi o item mais sacrificado pelas famílias para fazer frente ao aumento das despesas com a inflação — que fechou 2015 em 10,67% — e à perda de renda com o desemprego, que chegou aos dois dígitos. Viagens, restaurantes, shows, boates e teatros entraram na categoria de supérfluos e perderam espaço no orçamento doméstico. Mas o mestre de obras João Vicente de Souza, apesar de mais cauteloso, admite que ter algum lazer é necessário:


— Por mais que esteja na crise, a gente não deixa de viver. Se você for sentar numa cadeira e for pensar na crise, você pira.

O gerente comercial Jorge Luiz Coutinho usa o terraço como o principal local de lazer. A varanda com churrasqueira vem sendo cada vez mais usada nos momentos de folga da família, em lugar de idas a shoppings e restaurantes.

Mesmo os que têm mais recursos, como o casal Ronald Goulart e Júnior Grego, diante da alta do dólar que chegou a custar mais de R$ 4 no ano passado, mudou a categoria da alimentação nas viagens ao exterior: no lugar dos clássicos da gastronomia, entraram os lugares mais descolados.

A empresária Luciana Vasconi costumava fazer quatro viagens por ano, cortou para duas:

— Nosso grande prazer é viajar, mas ficou caro, principalmente com a alta do dólar. Somos uma família de seis pessoas.

Viagem internacional também não faz mais parte dos planos do casal Elias Corrêa de Farias e Vânia Vidal. Há três anos, eles não viajam para fora do país. Nos bons tempos, chegavam a ir ao exterior uma vez por ano.

— Dessa vez, viajamos para Porto Seguro e para a Pousada do Rio Quente — diz Elias.

PROGRAMAÇÃO CULTURAL GRATUITA

No dia a dia, aproveitam os programas gratuitos ou no meio da semana, mais baratos:

— Adoro cinema. Adoro teatro. Se tem alguma coisa boa acontecendo de graça, a gente vai. Fico pesquisando no jornal para tentar achar programas mais baratos.

A vendedora de salgadinhos Mayra Ribeiro conta que faz mais de três meses que não vai à Quinta da Boa Vista, parque vizinho à sua casa em São Cristóvão, na Barreira do Vasco. São quatro filhos (Mateus, de 13 anos, Jonhatan, de 9 anos, Isabella, de 8 anos e Brayan, de 4 anos):

— Qualquer coisinha que eles pedem é multiplicada por quatro. E eles sempre pedem.


A despachante do Detran Flávia Campos Silva cortou as viagens. O marido, Ivanilson Jessé Rosa, perdeu o emprego de bombeiro há poucos meses.

— Todo feriado a gente viajava para a Região dos Lagos, Vassouras. Agora, a última viagem foi no carnaval. Juntamos a família toda, 13 pessoas, para alugar uma casa.

A costureira Maria de Fátima de Souza, de 70 anos, gosta de dançar e aproveita que é de graça na comunidade da Barreira do Vasco:

— Gosto do forró, que eu não pago.

A última vez que Silvia Daniele, a filha dela, foi ao cinema foi no ano passado:

— Gastamos uns R$ 250. Comecei a fazer as contas e vi que dava para fazer 20 mochilas — calculou Silvia, que como a mãe, também é costureira na Retalhos Cariocas, espaço onde aproveita restos de tecidos de fábricas para montar bolsas e acessórios e também formar profissionais.

A antropóloga do consumo Hilaine Yaccoub explica que trocar cinema pelos filmes da internet faz que as pessoas sejam “curadoras do próprio entretenimento”:

— As pessoas estão conectadas e querem assistir a tudo na hora que quiserem. Não querem ficar reféns da programação da televisão e podem compartilhar o Netflix com cinco pessoas. É uma tendência que se faz presente, está se consolidando.

Os piqueniques na Quinta da Boa Vista e na Praia do Flamengo (Zona Sul do Rio) são as opções de lazer no momento, diz Hilaine:

— Coloca requeijão com temperos, salgadinho e passa o dia inteiro.

EM CASA COM AMIGOS

Reunir os amigos para um jantar em casa é a opção de muitas famílias. A empresária Luciana Vasconi já fazia isso e viu os amigos adotarem a prática.

— Sempre gostei de receber pessoas em casa, mais do que de sair para restaurante. Nos últimos dois anos, esse movimento se intensificou. O hábito passou a ser compartilhado por outras famílias. Quando saímos, escolhemos restaurantes onde se possa levar o próprio vinho.

A advogada Adriana Tinoco, que gosta de cozinhar, também aderiu ao lazer em casa:

— Sair para jantar, praticamente não saio mais. Levo os amigos para casa.

André Salata, sociólogo e pesquisador da PUC-RS, diz que a crise afetou o status da classe média que faz de tudo para manter o padrão de vida:

— Está muito claro no Brasil o que é necessário para fazer parte da classe média. Você tem que ter poupança, planos de saúde, escola particular... A crise é muito típica da classe média tradicional. Quando a situação econômica aperta, a classe média tem um desejo de manter esse status e tem que fazer certos ajustes. Não é simplesmente a questão econômica, é uma questão de fazer parte de um grupo que exige determinado padrão.