quinta-feira, 1 de setembro de 2016

"A crise continua", por Celso Ming, colunista de Economia do Jornal "O Estado de São Paulo"

Bom o artigo publicado hoje pelo colunista de Economia do Jornal "O Estado de São Paulo", Celso Ming

A crise continua
Ainda não há indicação de que o fundo do poço esteja sendo atingido

Celso Ming

31 Agosto 2016 | 21h00

Dilma Rousseff foi destituída, Michel Temer foi sacramentado como presidente da República, mas os problemas continuam aí, à espera de solução.
Como já foi dito aqui em outras oportunidades, apenas a aprovação da PEC que proíbe aumento de despesas acima da inflação – o que já não será tarefa fácil – não garante nem o saneamento da economia nem seu pretendido crescimento. Vai ser preciso desemperrar a arrecadação e colocar em marcha as reformas até aqui postergadas: reforma da Previdência Social, reforma das Leis Trabalhistas, reforma tributária e, mais que tudo, reforma política. E, para tudo isso, não basta a troca de administração do governo federal.

A situação das Contas Nacionais, da qual fazem parte o PIB e a renda nacional, divulgada nesta quarta-feira é o retrato de parte do estrago. O PIB continua em marcha à ré, pelo sexto trimestre consecutivo: queda de 0,6% em relação ao primeiro trimestre do ano.
Ainda não há indicação de que o fundo do poço esteja sendo atingido. Houve quem identificasse em dois números que compõem o PIB sinais de virada do jogo. O primeiro deles seria o aumento da renda da indústria, desta vez de 0,3% sobre o resultado do primeiro trimestre do ano, o que poderia sugerir recuperação. E o segundo, o avanço do investimento (Formação Bruta de Capital Fixo), de 0,4% em relação ao trimestre anterior, o que poderia indicar retomada iminente.
Mas não há ainda como apostar em que esses avanços marginais apontem para o início de uma nova fase. Estatísticas mais recentes que só vão entrar nos cálculos do PIB no terceiro trimestre mostram que o comportamento da indústria de transformação continua fraquejando. E o crescimento do investimento continua insignificante em relação à queda já acumulada.
Uma recuperação do setor produtivo parece mais plausível em razão da existência de grande capacidade ociosa a ocupar do que por esse avanço pífio do investimento. A tendência continua sendo de continuidade de queda do PIB, pelo menos nos dois trimestres seguintes.
A parcela da renda poupada (apenas 15,8%) e a parcela da renda investida (só 16,8%) mantêm-se fortemente insatisfatórias para o cumprimento do objetivo mais importante, que é garantir crescimento futuro (uma vez ocupada a capacidade de produção, para um avanço do PIB de 3% ao ano, seria necessário investimento de pelo menos 22% do PIB).

A única causa da depressão em que a economia brasileira está mergulhada foram as opções equivocadas feitas pelo governo Dilma. Durante as tormentas, qualquer capitão de veleiro recolhe as velas, ajusta o leme e se desfaz da carga supérflua. A presidente Dilma não cuidou da salvação do navio. Ao contrário, agravou o impacto das adversidades externas.

A derrubada do PIB mostra que o Brasil é mais pobre do que imaginava ser. A crise se encarregou de aumentar a desigualdade, na medida em que as camadas mais ricas da sociedade têm mais condições do que as mais pobres de se defender do desemprego, da perda de renda e dos demais percalços impostos pela crise.

O gráfico mostra como evoluíram até o segundo trimestre deste ano três itens decisivos do PIB. A indústria e o setor de serviços são componentes da ótica da produção. E o investimento é parte da avaliação feita pelo lado da demanda. O consumo fraco das famílias atingiu fortemente o setor de serviços e tende a continuar puxando para baixo a indústria. E tudo junto também aumenta o desemprego. O presidente Temer está definitivamente empossado. Tem agora de começar a apresentar resultados.