sábado, 25 de junho de 2016

"'Caímos num quarto escuro. Pode ter um tigre ou um gato', diz professor da FEA", para o blog da jornalista Thais Herédia

Vamos, mais uma vez, a um outro ponto de vista sobre a saída do Reino Unido da União Européia

Agora, uma avaliação do professor da FEA-USP, Simão Silber, destacada no blog da jornalista de economia da Globo-G1, Thais Herédia, ontem, no início da noite:

http://g1.globo.com/economia/blog/thais-heredia/post/caimos-num-quarto-escuro-pode-ter-um-tigre-ou-um-gato-diz-professor-da-fea.html

Sexta-feira, 24/06/2016, às 18:17, por Thais Herédia

'Caímos num quarto escuro. Pode ter um tigre ou um gato', diz professor da FEA

A dinâmica da tentativa e erro vai dominar as discussões sobre os efeitos do Brexit em todas as esferas possíveis. Dizer agora o que vai, ou pode acontecer no curto, médio ou longo prazo, é tão complexo quanto ineficaz. Passado o primeiro susto com a vitória pela saída do Reino Unido da União Europeia é possível, porém, elencar com mais racionalidade os motivos que levaram a maioria dos britânicos a declarar independência ao bloco do continente. Esqueça as motivações econômicas ou políticas, para o professor da Faculdade de Economia da USP, Simão Silber, os britânicos “olharam para seu próprio umbigo”.

“O Reino Unido é uma ilha separada. De lá, o britânico olha para o continente como um bando de selvagens. Há mais de mil anos que todas as grandes guerras envolveram a Inglaterra com algum lugar na Europa. O bloco (União Europeia) tentou criar o cidadão europeu para pacificar as relações e criar a cultura cosmopolita nos grandes centros. Mas na hora que a coisa engrossa numa situação de crise você vai esperar uma visão cosmopolita das pessoas? Não. Eu vou olhar o meu emprego, a minha renda, a minha proteção, o meu próprio umbigo”, explica Simão Silber.

O professor espera que os países e entidades envolvidas no processo de saída tenham muita calma e usem o tempo a favor das melhores soluções. O mundo vai viver uma paralisia, não é hora de se fechar negócios. Na visão de Silber, em uma semana já vai dar para ter uma ideia mais clara sobre as decisões que precisam ser tomadas e seus efeitos. Neste primeiro prazo, vai haver volatilidade e alto risco principalmente no mercado financeiro que antecipa os movimentos e busca preço para o que vai ocorrer no futuro.

Eu pedi ao professor para nos dar um exemplo de questão prática e ao mesmo tempo ultra complexa na relação do Reino Unido com o resto da Europa e que serve de alerta para qualquer medida radical de qualquer um dos lados.

“Imagine você que existe um túnel por debaixo do mar que liga a Inglaterra ao continente através da França. Hoje, mercadorias, pessoas, tudo que você puder imaginar, fazem esta travessia diariamente sem passar por aduanas nem de um lado nem do outro. Como vão fazer agora? Dentro do bloco, o RU não paga impostos e as mercadorias circulam livremente entre os países membros sem que haja uma fronteira entre eles” apontou o professor da FEA.

Outro exemplo dado por Simão Silber é a balança comercial entre os países-membros. Metade das exportações do Reino Unido é para o continente. Perguntei: por escolha ou por obrigação?

“Tem o acordo e tem a geografia. Uma coisa é vender para o continente passando tudo pelo Eurotunel, a outra é vender para China – só de transporte o custo já dispara. Há também os laços culturais, os padrões de consumo parecidos. Além disso, uma saída radical e de curto prazo rasgaria milhões de contratos da noite para o dia, o que seria uma loucura!”, ponderou.

E para nós, perguntei ao professor. O que sobra?

“Nós estamos muito fora e vai nos pegar indiretamente. Já sabemos que a ruptura derruba o PIB mundial e isso afeta a economia brasileira, claro. Enquanto durar a indefinição vamos ter menos emprego e menos crescimento, provavelmente. No dia a dia, vamos representar mais risco e um câmbio mais apertado. Mas veja, nós somos 2,6% do PIB mundial, ninguém vai dar muita bola para o que acontece aqui, só nós”.

Onde estamos agora?

“Caímos num quarto escuro, não temos informação e a reação é defensiva. O que pode ter lá dentro? Pode ter um tigre ou um gato. E para não ser engolido pelo tigre, vai todo mundo para o canto. E o canto financeiro do mundo são os Estados Unidos”, lamentou o professor Simão Silver.