domingo, 10 de abril de 2016

Você trocaria 52.500 por um caos político, econômico e social ?

O ano era 1992.....

Havia poucas razões para comemorar...

Não para o Jóquei J.Ricardo, mais conhecido como "Ricardinho". Com seu extraordinário cavalo Falcon Jet, debaixo de dilúvio, e diante de cerca de 35 mil pessoas, Ricardinho vence seu primeiro GP Brasil de Turfe, no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro. A reta final foi histórica; brigou "cabeça a cabeça" por 600 metros com 2 "monstros": o jóquei Juvenal Machado da Silva, e um outro cavalo marcante, Flying Finn.

Um repórter, num daqueles momentos raros, 2-3 minutos após a corrida, entregou a Ricardinho um rádio para um rápido comentário para as TV's que faziam a transmissão do Grande Prêmio:

"Eu ganhei "Seu Ernani" !...eu ganhei !", explodia em emoção J.Ricardo ao responder a um comentário feito pelo locutor oficial do Jóquei Clube Brasileiro, Ernani Pires Ferreira

Mas, o Brasil era muito diferente daquele momento captado numa tarde chuvosa do Rio de Janeiro.

O País, meses antes, havia passado por um "confisco da poupança"; tecnicamente, uma retirada de praticamente 80% do meio circulante, com o objetivo de acabar com uma hiperinflação, cujo ápice se aproximou de 80% ao mês.

As Finanças Públicas, diante de uma moeda que se desvalorizava cerca de 2% ao dia, eram uma verdadeira bagunça

A sociedade se virava como podia; se estocava no início do mês ou aplicava suas parcas poupanças no "overnight".

Pra piorar, o Brasil enfrentou um impeachment do Presidente da República no final do mês de setembro.

Talvez, em alguns momentos, de uma forma precipitada, alguns possam avaliar a atual situação numa perspectiva mais otimista do que aquela vivida em 1992.

Não....não é.....pelo menos, pra mim.

Não vivemos uma hiperinflação; porém, uma inflação de 10% ao ano é tão agressiva ao poder aquisitivo da população~, quanto uma de 60´%-70%-80% ao mês, principalmente quando comparamos dinâmicas de gatilhos salariais e indexações, próprios dos anos 80 e parte dos 90.

Numa outra direção, faltam estudos, visões, comparações e percepções muito mais profundos, justos e técnicos comparando as 2 realidades; a de 1992, e a de hoje.

O Brasil ainda é um país novo, uma "República" nova.....se ainda o é, imagine há 25-30 anos atrás.

Demarcando eventos históricos, o início dos anos 90 marcava essencialmente um período de apenas 30 anos de uma intensa industrialização brasileira, a partir da vinda das montadoras automobilísticas garantida pela Política Econômica de Juscelino Kubitschek

Bolhas de ativos, quando não passageiras e raras, inexistiam completamente.

O país era um grande país fechado....fechado a tudo, informática, capitais e muitos produtos industrializados, muitas vezes, para preservar os oligopólios brasileiros.

Estatais dominavam tudo, ou quase tudo, desde telecomunicações, geradoras de energia, até fabricante de aviões, como a Embraer.

O mercado financeiro reproduzia esse quadro; 3 bancos de investimento dominavam as mesas de operações, o Banco Garantia, o Banco Icatu e o um recém-chegado Banco Pactual, fundado e erguido por ex-executivo do Banco Garantia, Luiz Cezar Fernandes.

George Soros, através de seu fundo "Quantum", era uma parte infinitesimal de todo o bolo, com suas aplicações no Banco Pactual.

Portanto, os níveis de complexidade, relações, interrelações, troca com o mundo externo, seja por capitais e/ou investimentos, eram nulos, quando não ridiculamente baixos.

Por consequência, os impactos, quando pensados ou previstos, não permitiam grandes distensionamentos; talvez um susto aqui, outro ali.

Falamos de 1992......antes do Plano Real, e com toda a teia montada e relacionada no início do texto.

Estamos em 2016.....

O Brasil mudou muito de lá pra cá.....

Podemos dizer que temos um "Brasil antes do Plano Real" e um "Brasil depois do Plano Real"

O país modernizou-se, abriu sua economia, globalizou-se, pra usarmos uma "expressão comum", executou privatizações por vários setores, atraiu grandes investimentos, diretos ou não, por meio de fundos ou não, pessoas físicas e jurídicas, pequenas e grandes empresas.

O Mercado financeiro, por sua vez, volta a refletir a mudança; as mesas de operações cresceram, não temos "apenas" Garantia, Icatu e Pactual; temos o brasileiro BTG Pactual e tantos outros estrangeiros olhando e operando por aqui.

O capital externo entra e sai do Brasil a reboque de mínimos movimentos promovidos nos Bancos Centrais mundo afora.

Assim, a presença e a gestação de bolhas de ativos ao longo dos últimos anos é tão ou mais forte do que bolhas de ativos vistas nas economias maduras; agora, a despeito de nos caracterizarmos como "emergentes", somos vulneráveis a quaisquer movimentos de capital.

Dentro desse contexto, o quadro político-econômico e social em que nos encontramos

Daqui a poucos dias, o país enfrentará uma votação do Impeachment da atual Presidente da República, Dilma Rousseff.

Impedida ou não, o que acontecerá depois ?

Revejam os parágrafos acima, reflexos dos 2 momentos; 1992 e o atual.

O foco foi muito mais econômico.

E é por aí que começamos a revisá-lo

O país está parado, completamente parado nos últimos meses, em particular, nos últimos 40-50 dias, período em que se intensificou a dinâmica da votação do Impeachment.

As variáveis levantadas, explicita ou implicitamente, ao longo do texto, pioraram, e muito o quadro econômico.

Tudo isso, montado sobre uma estrutura bem mais complexa do que 1992.

E, depois do Impeachment ? Passando ou não.....

Do ponto de vista político, o que esperar no "D+1" ?

Fala-se hoje que não temos um Líder na Oposição que "lidere" ou "coisa assim" um momento "Pós-Impeachment".

Hummmm......é mesmo ?

Em 1992 existia ? Talvez Lula, um "ex-operário" na liderança de um partido que já se mostrava forte.

Curiosamente, coube a quem liderar o país para uma transformação ?

Coube ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que estava no Ministério das Relações Exteriores, e de forma inesperada foi levado para o Ministério da Fazenda.

Dali, mesmo sem ser o principal nome do PSDB, partido que, assim como o PT, já se mostrava forte, Fernando Henrique Cardosos liderou e chancelou um grupo de economistas na formulação e criação do Plano Real, que acabou levando-o a Presidência da República em 1995.

O que pesa aqui, no quesito "política", não é o nome em si; nomes e lideranças são construídas; o problema principal, no âmbito político, é que em 1992, tínhamos pouco mais 2 anos até novas eleições.

Agora, temos 6 meses a mais.......

E, pra piorar, o partido do governo, não um "partido qualquer"; "morto" ou não, tem em suas mãos os "ditos movimentos sociais"; muito diferente do que 1992; ali, toda essa "teia" estava do lado do Impeachment

Como agiriam PT, suas conexões e os "ditos movimentos sociais" após o Impeachment ? Tal característica molda, além da variável política,  o "social"

Mais uma vez, o "2016" é muito mais complexo do que "1992".

Chegamos no Bovespa....

O rally, visto nos últimos 3 meses, quando o Bovespa saiu de 37.000 para a faixa de 52.200, tocado semana retrasada, se sustenta ?

Tem fundamento ? Tem consistência ?

Um impeachment, depois de tudo o que foi dito acima, dará mais "gás" ao índice, ou tudo que foi feito até agora apenas recalibrou alguns exageros, sejam em commodities, reflexo do exterior, sejam em setores internos ?

Tecnicamente falando, apenas o Bovespa recalibrou ativos excessivamente sobrevendidos, pelos mais variados instrumentos e rastreadores gráficos, ou irá subir mais ainda ?

Destacarei 2 gráficos que podem nos servir de alguma bússola.

O primeiro, que cobre 5 anos, mostra a faixa de 52.500 muito forte e um divisor extremamente importante.

Também mostra uma LTB passando ali por volta de 53.500

O segundo gráfico, de 12 anos, mostra uma LTB mais longa, passando ali por volta de 58.000....e mais uma vez, a indicação do poderoso divisor de 52.500


Bovespa, Semanal, escala logarítmica, período 5 anos



Bovespa, Semanal, escala logarítmica, período 12 anos


Além desses 2 gráficos, algo me diz que a "tabela períódica" abaixo descrita está sobre as mesas de operações de vários bancos...

Pra vender ou comprar ? Até onde ? 42.500 ou 25.000 ?