domingo, 9 de novembro de 2014

"A engenharia reversa do Brasil começou lentamente em 2011, acelerou-se em 2012, perdeu o freio em 2013 e bateu no poste em 2014.", por Monica de Bolle

Muito bom o artigo de Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto "Casa das Garças" e professora da PUC-RJ, publicado no Jornal "O Globo" na última quinta-feira, 06-11-2014

Título do artigo : "Outubro Vermelho"

Vamos a ele:

http://www.casadasgarcas.com.br/


"Outubro Vermelho"

Texto de Monica Baumgarten de Bolle para O Globo a Mais.
Publicado em: 06/11/2014


O “Outubro Vermelho” de Tom Clancy é um submarino que, depois de capturado pela marinha americana, passa por processo de engenharia reversa. Engenharia reversa: processo que envolve desmontar algo para analisar, minuciosamente, o comportamento de seus diversos componentes. Quando conduzida com competência, a engenharia reversa permite que se reconstrua o dispositivo, muitas vezes melhorando o seu desempenho. Quando feita com incompetência e falta de aptidão, resulta no Brasil de 2014, desemboca na versão nacional do “outubro vermelho”.

Outubro foi mês vermelho. Não apenas devido aos resultados das eleições presidenciais, mas, sobretudo, por causa da hemorragia interna, cujo anúncio o governo adiou para depois do pleito. Em outubro, registramos vermelhos históricos: o pior desempenho das contas públicas desde o Plano Real, o maior déficit da balança comercial em 16 anos, um rombo nas contas externas como não víamos há muito – quase 4% do PIB. Surpreende que a balança comercial tenha ficado no vermelho mesmo com a queda expressiva das importações: mais de 15%. Queda nas importações é, geralmente, sinal de que a atividade econômica não anda nada bem. Caem por terra, portanto, as declarações do Ministro demissionário de que tudo há de melhorar no último trimestre de 2014.

O governo também adiou outro fato nada auspicioso constatado em outubro: segundo estudo do IPEA, a miséria, o número de pessoas sem rendimento suficiente para comprar cesta mínima de alimentos, não só parou de cair, como teve ligeira alta em 2013. Em 2013, a economia brasileira estava melhor do que agora, a inflação, que devora impiedosamente os mais pobres, estava menor do que agora. Portanto, se a miséria já havia subido em 2013, deve ter aumentado novamente em 2014, ante a mais absoluta prostração da economia brasileira. Não custa lembrar que a queda acentuada da pobreza entre 2003 e 2012 é motivo de enorme orgulho petista, principal eixo da narrativa do “nunca antes”. Narrativa que sangra entre arroubos inflacionários e a perspectiva cruel de que a economia moribunda comece a estrebuchar com desemprego crescente.

A engenharia reversa do Brasil começou lentamente em 2011, acelerou-se em 2012, perdeu o freio em 2013 e bateu no poste em 2014. Resta, agora, à nova equipe econômica – envolta por mistérios insondáveis – a mais árdua e penosa das tarefas: caçar o submarino nuclear que assombra nossas costas.